Organizar sua vida é honrar seus ancestrais!

Mulheres Negras, Pessoas Negras e a Organização Pessoal: como isso pode mudar nossas vidas?

Foto: Maiara Cerqueira, 2020


Se eu não fosse uma pessoa organizada, talvez, já estivesse em estado de emergência, dentro ou fora do contexto de pandemia. Se bem que com a quarentena tem horas que eu acredito que dei pane no sistema, mas está tudo bem. É preciso agradecer todos os dias ainda estar viva.


Mulheres negras e pessoas negras em geral, sejam elas acadêmicas ou não, estão fadadas a uma rotina diária de muito trabalho. É uma sobrecarga imensa. Um trabalho nunca é suficiente para dar conta do recado. É aquela velha história de precisar ser duas vezes melhor para ser notado(a), ou nem isso. Eu me organizo para não pirar com o fluxo de informações que recebemos no contexto atual. Me organizo para que lá na frente, possa ter orgulho o suficiente das estratégias que nossos ancestrais traçaram para que hoje, estivéssemos eu e você, vivo(as)s, eu escrevendo esse texto e você lendo nesse exato momento. Para me sentir satisfeita e reconhecer quando chegar a um destino, cujo caminho eu própria tracei sozinha.


A organização pessoal é meu ponto de partida e também, de equilíbrio. Como mulher negra, minha fala nesse campo prático do saber estará sempre entranhada pelas vivências experimentadas em um corpo negro, mesmo em pele relativamente clara.

Sou filha de pais negros, ambos de origem pobre, mas que viram resultados diante de seus esforços em me dar uma vida melhor. Assim como meus avós certamente lutaram para dar uma vida melhor aos meus pais.


Faço jornalismo na Federal da Bahia mas venho do Bacharelado Interdisciplinar em Artes, diploma garantido na mesma instituição. Convidada a escrever sobre organização pessoal pelo Diálogos Insubmisso de Mulheres Negras, tive certeza que retomaria a minha trajetória e formação, pois assim, evito que seja interpretada como uma mulher inexperiente, se considerarmos a idade. Para mim, a organização pessoal, como já deixei circunscrito, passou a ter que caráter ancestral, é uma forma de honrar àqueles que lutaram para que eu tivesse acesso a educação, cultura e outros campos que alimentam essa nitidez sobre a importância da auto-organização.


Comecei a falar sobre o assunto em meu perfil pessoal no Instagram, inicialmente quando a primeira vez escrevi e relatei sobre a importância de traçar metas palpáveis no início do ano. A propósito, se você pretende algo, como ousa não planejar como vai conseguir, seja esse desejo material ou imaterial? Achava que traçar metas palpáveis toda vez que “um ano está prestes a virar”, era algo que todo mundo minimamente fazia. Engano meu, muitas mulheres como eu ignoravam a possibilidade de se organizar, fosse no início, meio ou final do ano.


Fui percebendo que mulheres negras da minha idade (o público que majoritariamente me acompanha), de uma forma geral, não consegue enxergar as estratégias de coletividade que nossas mais velhas e mais velhos traçaram em prol da sobrevivência de suas comunidades. Bem como mulheres negras mais velhas que eu, apresentam dificuldades no tato com as plataformas digitais e isso as faz criar um certo tipo de repulsa com organização pessoal dentro do ambiente digital. Eu sou do analógico, do papel e da caneta, mas uso muito as ferramentas digitais ao meu favor e é preciso pensamos nisso urgentemente, no equilíbrio em termos de organização.


Coisas como não ter suas próprias gavetas organizadas da parte das mais novas, me assusta. E ter vergonha de colocar a cara para jogo pois se sente velha demais para tirar um projeto da gaveta por parte de mulheres mais experientes, ainda mais. Digo isso pois haverão produtoras de conteúdo sobre o tema que afirmam que se organizar não é sobre organizar as calcinhas na gaveta (e não é mesmo) mas é sobre organizar sua casa e seu ambiente de trabalho também.


Desconfio quando vejo pessoas falarem sobre organização e/ou produtividade menosprezando a organização do ambiente como fator primordial em nossas vidas. Eu costumo dizer que por mais simples que seja, o ambiente onde você dorme, come, trabalha, vai influenciar em sua rotina. E se menosprezam esse setor quando falam sobre organização pessoal, sinto que tal questão vem de uma desvalorização do trabalho braçal. Do trabalho das empregadas domésticas, do trabalho dos pedreiros, dos auxiliares gerais e outros campos mais. Afinal, há gente que sempre teve como escrever no planner porque sempre houve quem arrumasse suas gavetas em seu lugar. Eu aprendi a valorizar a organização pessoal de uma forma mais profunda quando me vi na Universidade Federal da Bahia.


Não sou cotista, mas assim como muitas pessoas negras daquele espaço, sei o que é necessitar trabalhar enquanto estuda e não querer deixar a desejar em nenhum dos campos de sua vida. Sei o que é pegar duas ou três conduções para não se atrasar. Estudo numa entidade que se quer possui uma mulher negra como professora adjunta na universidade, como eu poderia deixar me abater e ver essa história se repetir? Foi preciso cada vez mais gerir meu tempo. Não para me tornar professora, mas para ter algum destaque, e ser respeitada quando falo sobre coisas que só eu ou uma pessoa negra, uma mulher negra poderá falar, porque isso tem haver com experiência.


Comecei a tratar sobre organização, especialmente para motivar as mulheres negras a minha volta, as amigas que estão comigo na universidade, ou que me acompanham nas redes sociais dizendo que querem desistir porque não aguentam a sobrecarga. Não temos mesmo que aguentar. Mas podemos substituir desespero por estratégia, reclamação por estudo, vontade de desistir por determinação e espaço para respirar, surtar de vez em quando, mas não todos os dias.


Eu passei a ler e a dormir no ônibus, muita gente achava absurdo especialmente por conta da segurança pública em Salvador, mas com o tempo até os cobradores me acordavam quando chegava na porta da faculdade. Eu entendi que precisava me organizar financeiramente para uma hora conseguir o “celular do ladrão”, e outro que sempre ficasse “salvo” sempre enrolado em vários panos da minha mochila. A organização pessoal para pessoas negras tem um contexto complexo e diferente do que geralmente é pautado por quem fala sobre o assunto no auge de seus privilégios. Muita gente fala sobre o quão é importante se organizar mas sempre tiveram um arcabouço afetivo para valorizar sua própria vida, seu próprio dinheiro, e ainda bem. Todos deveriam ter direito a isso, mas muitos de nós não vimos nossos pais terem tempo para nos ensinar sobre o assunto. Muito menos as escolas se importaram em ensinar.


Organização pessoal para o povo negro é de fato algo mais profundo, leva tempo, mas é um divisor de águas para a resistência. Não é sobre os instrumentos e ferramentas que possuímos a nossa disposição, mas sim o que fazemos com o que temos no aqui e agora, transformando planejamento em ação.


*Texto originalmente escrito para o quadro "Preta Dando A Letra" do Diálogo Insubmisso de Mulheres Negras publicado em 16 de Junho de 2020. Acesse aqui.


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